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Quando discordar virou identidade

Representação de polaridade

2025 consolidou um movimento silencioso, porém profundo: discordar deixou de ser um exercício de pensamento e passou a ser uma identidade.

Ou seja, já não se trata apenas de opiniões diferentes. Pelo contrário, trata-se de pertencimento construído a partir da oposição. Em muitos casos, portanto, não importa o que se defende, mas contra quem se está.

Dessa forma, este texto não é sobre política partidária. Antes de tudo, é sobre o impacto psicológico e social do conflito permanente.


O conflito como estado contínuo

Ao longo de 2025, o conflito deixou de ser um evento pontual e, gradualmente, passou a ser um estado constante.

Além disso, discussões políticas, sociais e morais invadiram conversas familiares, ambientes profissionais e relações de amizade. Como consequência, não havia mais espaço neutro. O silêncio, por sua vez, passou a ser interpretado como omissão, enquanto a dúvida passou a ser vista como fraqueza.

Nesse contexto, quando tudo vira disputa, pensar se torna perigoso.

Representação de armadura emocional

A perda da escuta real

Em essência, discordar exige escuta. Confrontar, no entanto, exige apenas reação.

Em 2025, reagimos mais do que ouvimos. Assim, as respostas vieram prontas, moldadas por narrativas pré-digeridas, repetidas até se tornarem verdades pessoais.

Como resultado, o diálogo perdeu profundidade, porque ouvir passou a ameaçar a identidade.


Crenças como armadura emocional

Naturalmente, crenças sempre fizeram parte da experiência humana. O problema surge, entretanto, quando elas deixam de orientar e passam a proteger emocionalmente.

Diante de um cenário de insegurança e excesso de estímulos, muitas pessoas endureceram suas posições não por convicção madura, mas por medo de desorientação. Assim sendo, a crença deixou de ser referência e passou a ser defesa.

Em outras palavras, a crença virou armadura.


O custo psicológico da oposição constante

Consequentemente, viver em estado de oposição contínua cobra um preço alto.

Por exemplo:

  • aumenta a ansiedade;
  • reduz a capacidade de empatia;
  • simplifica excessivamente problemas complexos;
  • alimenta a sensação permanente de ameaça.

Enquanto isso, o corpo reage como se estivesse sempre em alerta. Ao mesmo tempo, a mente perde nuance e a emoção se torna reativa.


Clareza não é concordar

Sem dúvida, discordar faz parte do amadurecimento. O problema, portanto, não é a divergência em si, mas a incapacidade de sustentar pensamentos diferentes sem se fragmentar emocionalmente.

Assim, clareza não exige alinhamento total. Exige consciência.

Por isso, é possível discordar sem atacar. Da mesma forma, é possível ouvir sem abandonar princípios. E, acima de tudo, é possível pensar sem se tornar inimigo.

Comunicação conflitante

Um convite necessário

Em síntese, 2025 mostrou que o conflito não nos tornou mais fortes. Pelo contrário, tornou-nos mais rígidos.

Antes de avançar, portanto, vale uma pergunta honesta:

você discorda para compreender ou para pertencer?

Nos próximos textos, seguiremos explorando como esse ambiente de tensão impactou outras dimensões humanas — começando pelo corpo, que sustentou silenciosamente esse estado de alerta constante.

Porque, afinal, viver com clareza também exige aprender a discordar sem se perder.

O Veja Claramente iniciou o ano com um manifesto revelador do ano de 2025. O artigo que acabou de ler faz parte dessa série que inicia 2026 com foco em autoanálise e autoconhecimento. Leia aqui e confira: Manifesto 2025: o ano que revelou mais do que prometeu.

Manifesto 2025: o ano que revelou mais do que prometeu

Ano passado foi cansativo

2025 não foi um ano confuso. Foi um ano revelador. Revelou o quanto estamos cansados, o quanto reagimos mais do que refletimos e o quanto confundimos informação com clareza. Enquanto muitos buscaram respostas rápidas, poucos tiveram coragem de fazer a pergunta certa: como estamos vivendo? 

Este texto não é uma retrospectiva. É um ponto de consciência

O excesso não foi de problemas — foi de estímulos 

Em 2025, o mundo não criou novos dilemas humanos. Ele apenas os amplificou. 

Política, conflitos, tecnologia, saúde mental, pertencimento. Tudo esteve presente o tempo todo, em volume máximo, sem pausa para digestão emocional ou cognitiva. O resultado não foi lucidez. Foi saturação. Portanto, quando tudo exige atenção, nada recebe profundidade. 

Informação não virou entendimento 

Nunca tivemos acesso a tantos conteúdos explicando tudo: como viver melhor, como pensar melhor, como sentir melhor. Ainda assim, nunca estivemos tão perdidos. 

Porque saber não é o mesmo que integrar

2025 deixou claro que consumir ideias não transforma ninguém. Sem prática, sem responsabilidade e sem silêncio interno, o conhecimento vira apenas mais um ruído. 

Pessoas sem propósito

O corpo ficou para trás 

Falou-se muito sobre saúde mental, mas pouco sobre o corpo que sustenta essa mente. 

Corpos cansados passaram a ser tratados como normais. Sono virou luxo. Movimento virou exceção. Alimentação virou compensação emocional. 

O Veja Claramente insiste: a dimensão física é a base. Ignorá-la cobra um preço alto — e 2025 começou a apresentar essa fatura. 

Reagir substituiu refletir 

Opinar ficou mais importante do que compreender. Discordar virou identidade. O diálogo perdeu espaço para o ataque rápido. 

Em vez de consciência, cultivamos reatividade. 

Quando a emoção governa sem clareza, decisões se tornam impulsos e relações se tornam campos de batalha. 

Pertencer virou abrigo, não construção 

Muitos buscaram pertencimento como forma de alívio, não de crescimento. 

Grupos ofereceram conforto, mas exigiram rigidez. Aceitação veio condicionada à repetição de discursos. Questionar passou a ser visto como ameaça. 

Mas maturidade emocional exige exatamente o oposto: capacidade de sustentar desconforto sem se perder

O que 2025 realmente pediu 

  • 2025 não pediu pressa. Pediu pausa. 
  • Não pediu respostas prontas. Pediu responsabilidade pessoal. 
  • Não pediu mais ferramentas. Pediu consciência no uso delas. 
  • Poucos atenderam a esse chamado. 
Múltiplas telas

Um fechamento necessário 

Este manifesto não é um julgamento do mundo. É, sobretudo, um convite ao indivíduo. Por isso, antes de entrar em 2026 com novas metas, vale uma pergunta honesta: o que 2025 revelou sobre você?

Nos próximos textos desta série, vamos olhar com mais profundidade para os temas que moldaram este ano — não para apontar culpados, mas para recuperar algo raro: clareza. Porque sem ela, nenhum ano muda de verdade. 

E para começar 2026 leia minha “Carta aos irmãos com câncer“. Com ela, darei início a uma faxina pessoal intensa.

Carta aos meus irmãos com câncer 

Um lugar inspirador

Anápolis, 21 de janeiro de 2026.

Aos meus irmãos com de câncer, onde estiverem. 

Inicialmente, saúdo todos vocês apresentando meus desejos de melhoras e cura, seja do melhor modo compreendido e aceito por cada um. Digo assim, pois sigo respeitando as individualidades de fé e crença. Da minha parte, oro a Deus e peço para que o amor do Cristo continue a fluir em nós. 

Esta carta não é um manifesto de melancolia, dor e sofrimento, mas sim o começar do tratamento do meu estado, uma vez que entendo agora, deve ter origem na minha própria vontade interior. Não gostaria que achassem que tenho apego por sentimentos quaisquer, mesquinhos, atrelados ao apelo emocional, desses baixos como vemos rem reclamações, murmurações e pragas. A minha intenção é contrária; está justamente em poder falar com vocês sobre nós e nossa condição, sem parecer aos demais que choramos pela atenção e dó de próximos. Pelo menos acho que assim poderei abrir caminho para cura. 

Pois bem… 

Tenho 45 anos de idade e fui diagnosticado, há um ano e pouco, com um hemangioma cerebral, um tumor de tamanho considerável e de origem desconhecida. Existem outros nomes apontados em diagnóstico médico, que trazem uma melhor definição. No entanto, a palavra tumor me faz mais sentido. Originalmente, meu tumor é benigno e não é agressivo. A questão é sua localização, onde decidiu crescer e se hospedar: é bem embaixo do cérebro, no seio cavernoso, pressionando a parte esquerda do cérebro, nervos ópticos, artérias, aorta e, finalmente a hipófise. Não é operável sem grandes riscos; quimioterapias e radioterapias poderão trazer prejuízos de curto prazo, o que o tumor em si, talvez não traga em longo prazo. Então, a prescrição médica especializada é viver como se ele não existisse, mas acompanhar seu crescimento a cada seis meses. Quisera eu que fosse fácil assim

Estou certo de vão entender isso muito bem e até melhor que eu. Talvez até se lembrem do momento em que ouviam suas opções de tratamento. 

Porém, esta mensagem não deve ser um registro médico detalhado; apenas apresento o meu câncer ao seus, expresso o meu caso aos seus, com a intenção apenas de adquirir a propriedade de comungar e pedir uma espécie de licença figurativa para falar disso e sobre isso. Faço não só por indicação psicológica, mas para tentar vencer minha própria teimosia – esta que me segue desde os momentos anteriores da existência. Profissionais me orientaram que entender, aceitar e falar sobre o fato de ter câncer me ajudaria na caminhada, mas o que me traz aqui e escrever esta carta é o que, penso eu, ser a motivação maior: a dor. A dor da perda. A perda e a dor, quem sabe. 

Sim, em pouco mais de um ano já perdi muito, assim como vocês também, imagino. Mas sei que há muito a ganhar, acho que começo a perceber; e seria um sentimento glorioso se eu pudesse aprender com vocês. Uso desta ocasião para pedir-lhes isso, justamente. Só terá sentido o meu falar se também falarem; só existirá melhora se me compartilharem a sua melhora; e só poderei obter ajuda se, e somente se, puderem me ajudar. É meu pedido. 

Continuarei falando e escrevendo sobre o câncer. Todavia, será de maneira a compreender as dimensões da vida, o impacto sobre fatores que determinam o dia a dia, e com uma espécie de determinação em identificar ferramentas, de quaisquer tipos, que ajudem a seguir com essa missão, por assim dizer, de ter câncer – seja passageiro ou de forma definitiva. Sei que já existem muitas, mas parece que devo encontrá-las e ajustá-las a minha vereda. Não discuto sobre estar absolutamente certo de que encontrarei amparo em suas vitórias. 

Sem mais por enquanto, espero que esta mensagem os encontre em pleno gozo das capacidades divinas de suportar e superar

Não tenho dúvidas que, brevemente, compartilharemos. 

O Senhor é conosco! 🛐

Rodrigo Gomes Rodrigues. 

Um iniciante no caminho 

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